Pages

Ronaldo Magella - CONTRA TUDO E TODOS


Toda vez que devo preencher uma ficha de cadastro ou inscrição e lá me perguntam se tenho ou há alguma deficiência física em que gostaria de ali exarar, me dá uma vontade imensa de responder afirmativamente, sim, certeza, e logo em baixo me descrever, sou feio, não sou bonito, tenho ausência de beleza, ora, quer maior deficiência física maior do que essa?


Em pouco mais de 31 anos sobre a face deste orbe nunca vi, mulher ou homem, dizer algo do tipo, ele tem um bom coração, é uma pessoa boa, gosto da inteligência dela, do caráter dele, quero assim ficar com ele/ela, nunca e nunca irão dizer, esse discurso de que beleza interior nos importa, é apenas retórica, reflete o mundo em que vivemos, um mundo falso, como diz Luis Felie Ponde, um mundo que mente para si mesmo.


Sempre ouvimos são as mesmas frases, é lindo, é uma gatinha, é gostoso, é um deus, é um pão, nossa, um filé. Num Mundo que cultua a beleza como fim, como verdade universal, como meio de se obter a felicidade, como último estágio de evolução e civilização, não poderia pensar de forma diferente, sim, sou feio, sou um deficiente, como diria um velho amigo me, sou um pária, estou distante dos padrões e das formas almejadas, requeridas, sonhadas, desejadas, nem sei ainda por qual motivo ainda estou vivo. Penso que quando começarem a exterminar pessoas feias e obtusas meu nome estará pululando, ululando na lista dos mais procurados.


Meu vício é ler, uma forma de fuga, um refúgio, minha caverna, meu mundo paralelo, minha outra dimensão, meu mundo espiritual, minha essência, minha beleza, meu reino. leio pra disfarçar a pressão que o mundo me faz sentir, leio pra disfarça minha barriga grande e meu rosto estranho, leio para entender o que se passa no mundo, para compreender por que afirmamos que gostamos de pessoas boas, que beleza não é importante, que dinheiro não pode nos fazer felizes, mas que em contradição ao que afirmamos, vivemos outras coisas, gostamos de quem não gosta de nós ou nos faz sofrer, estamos desgraçadamente buscando a todo instante nos melhorar em corpo, em físico e em estética e morremos, como matamos, por dinheiro, por poder, por fama, por sucesso, pelo topo.


Esse mundo não é meu, muito embora eu tenha que viver nele, por isso escrevo, escrevo para morrer em mim e sufocar aquilo que não consigo gritar, mudar, transformar, aqui despejo e alojo minha raiva, minha ira, minha mágoa, minha depressão, na escrita, na crônica, no ensaio, nas linhas. Aliás, quero ressalvar as pessoas que sofrem, pois como disse Luis Felipe Pondé, no livro Contra um mundo melhor, o fracasso, e, por conseguinte o sofrimento, é a única coisa que nos humaniza, nos torna gente, pessoas, melhores, você que pensa que conseguindo amor eterno, felicidade pura, dinheiro abundante se tornará melhor, uma pessoa mais amena, sutil, você está enganado, enganando-se ou é apenas um mentiroso sem vergonha.


O que você quer é apenas saciar o seu egoísmo violento e radical. Por isso que deixei de querer ser feliz, não acredito em pessoas que tomam cerveja e discutem miséria, pobreza, corrupção, que sentem pena dos outros, mas que não conseguem renunciar aos seus vícios e desejos, não acredito em pessoas que se dizem cristãs e não conseguem perdoar, esquecer, melhorar-se, não acredito em que fala e não vive, acredito no silêncio ativo, na obra sem alarde, na paz que vai e nunca na que é pedida, no amor doado e não amor pedido.


Faz tempo que deixei de querer ser feliz, senti que era egoísmo demais querer ser alegre enquanto outros sofrem na minha frente. Não, não sou um masoquista, sou homem que pensa e busca apenas o bom senso de si mesmo pelo que percebe do mundo ao seu redor, das pessoas, das vidas, dos sentimentos, dos fracassos. Não busquem em meu sorriso a verdade das minhas palavras, nem no meu corpo, nem no meu resto, mas quiçá, no meu coração pobre e pecador, nos meus pensamentos obscuros e turvos, soturnos e particulares (aqui minto, não tenho nada de autêntico ou original, sou uma soma de tudo o que leio, vejo, escuto, das pessoas com quem convivo).


Esse é o nosso mundo, acreditamos em Deus, mas estamos a todo instante elegendo outros deus para viver ao nosso, a adoração aos corpo, ao sexo, a beleza, ao dinheiro, a fama, ao poder, ao sucesso, não é uma troca boa, prefiro o Deus do Céu, ou seja lá de onde ele for e estiver, ando a pé pois posso sentir o chão e olho para a estrela, algo que não consigo compreender e me dá sensação de quanto a minha fragilidade é imensa e humilhante. Sou um pensador de mim, intelectual de blog, um filosófico de MSN, Orkut, Twitter, alguém inconformado com a vida e com mundo.


Sim, você tem razão, sou mesmo reprimido, bipolar, depressivo, todos os rótulos e títulos que possam e queiram me dá, uma forma de diminuição e limitação da minha existência, e tudo isso que escrevi é conseqüência da minha deficência física, na verdade gostaria de ser a todos mundo, o gatinho da escola, o professor bonitinho, o escritor charmosinho, o poeta sedutor, mas não sou, sou o que sou e não o que pensam de mim, aliás, não podem me definir por um texto, esse reducionismo sei que existe, mas não me cabe, nem me desequilibra, o que me angustia é pensar e não viver, sentir e não conseguir cotidianizar, isso me torna profundamente infeliz.


A minha feiúra tem cura, e mesmo se o tiver, não é universal, absoluta, mas a cegueira dos corações muitas é irrecuperável, ou como dizia Nelson Rodrigues, invejo a burrice, porque ela é eterna.



-Ronaldo Magella - Jornalista e Professor - Blog - http://www.ronaldo.magella.zip.net/

0 comentários: