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RONALDO MAGELLA - AINDA PENSO O AMOR ASSIM


Sim, nós mudamos em muitas coisas, evoluímos em tecnologia, informação, máquinas, objetos, comunicação, mas ainda parece que somos os mesmo animais atávicos, principalmente quando falamos em sexo, comida, prazer, o nosso egoísmo e os nossos sentimentos, nossas paixões e nossos vícios são mais fortes e nos dominam, e ainda são os mesmos de milhares de anos.

As pessoas ainda percebem as outras pessoas com objetos ou peças de prazer sexual, pedaços de carnes, e dizem sempre as mesmas frases envoltas em um desejo mesquinho e vil, nossa, é gostosa, é um gato, é um pão, é um filé, demonstrando ainda a nossa inferioridade na forma como tratamos as pessoas, os outros seres humanos.

Não podemos negar ou não admitir que hoje no mundo há muitas pessoas belas e bonitas em corpo esculturais, modelados, malhados, mas muitas vezes penso comigo, é apenas um pedaço de carne, tem apenas uma embalagem charmosa e atraente, e não vale a pena desejar comida quando você pode viver amor, carinho, amizade, afeto, valores. Nós corremos atrás de prazeres banais e fáceis.

Gostamos do sexo porque o sexo é rápido, da paixão, pois ela é arrebatadora e finita, muda com o vento, mas não suportamos amar, pois este implica em aceitação, renúncia, silêncio, convivência, envolvimento, cotidiano, mesmice, e num mundo como o nosso, em que as emoções e sensações mudam num átimo de tempo, em pequenos e curtos espaços de vida, não suportamos nada sólido e duradouro como o amor, queremos e preferimos a vida líquida, que se desmancha no ar rapidamente, ou melhor, das nossas vida.

Amadureci para entender e compreender que mais do que corpos e viver o prazer que eles podem nos proporcionar, o bom mesmo é viver histórias, momentos, emoções, sensações, não estou dizendo que o sexo seja algo ruim ou que deva ser evitado, apenas digo que, e penso assim hoje, ele deve ser conseqüência não razão primeira, objetivo central e único. O bom é viver o outro, sentir o outro, sorrir com o outro, estar com o outro, querer por gostar, gostar por querer, sentir por amar, amar por sentir.

Muitas relações terminam, chegam ao final, pois as pessoas se apaixonam pelas partes, pelo rosto, pelo corpo, pelos seios, pela bunda, pelas coxas, mas a relação, quando convivemos não ficamos apenas com a parte, o todo vem de brinde, de presente, e nem sempre temos a tolerância de suportar o outro ou a outra, o seu mau humor, o seu pessimismo, o seu fracasso, a sua tragédia existencial, tudo isto por que pra nós foi mais importante o corpo do que propriamente o ser humano, o prazer que tal parte poderia nos proporcionar, do que a história que poderíamos viver.

Tem uma frase de uma amiga que acho interessante e gosto demais, ela sempre costuma dizer, não gosto de sexo, gosto de história, mas se o sexo acontecer no final, melhor ainda, mas o importante é a vivência. O bom é envolver-se e criar uma relação sólida para quando não haja sexo, tenha-se amizade, conversa, entendimento, companheirismos, cumplicidade, aceitação, vontade e desejo.

Hoje entendo o amor assim, as relações, os afetos, devo ser mesmo um sonhador, num mundo regido por imagens e prazeres, por sexo e desejos, pensar em coisas assim soa mesmo engraçado, utópico e até poderão dizer, ridículo.


Ronaldo Magella

http://ronaldo.magella.zip.net/

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